eu fiz naikan

Pousada sustentável
Quando praticei o Naikan em novembro 2014 na Vila Yamaguishi percebi que nunca tinha parado para pensar. Sempre gostei de servir e ajudar os outros e a mim, com o foco de ir “ressolvendo coisas”. Finalmente no Naikan parei … observando as relações com meus queridos re-descobri minha história, pensando … consegui entender um pouco mais do meu jeito, das minhas atitudes e dos meus problemas. Compreendendo quem sou eu hoje, como se formou essa minha personalidade, me fez ficar em paz comigo mesmo e me relacionar melhor com os outros. Observando os fatos …. sem julgar no automatico da nossa mente cotidiana.
Considero o Naikan uma prática primordial na criação de grupos e ecovilas. Observando sem julgamento, introspecção no intuito de compreender a nossa realidade – penso que isso facilita em muito a convivencia e entendimento da vida em Comunidade e Ecovilas. Eraldo (Horst Erhad Bernhard Kalloch) – idealizador da Ecovila El Nagual

matheusa minha motivação – O que me motivou a fazer Naikan, de inicio, foi o relato das pessoas que fizeram. Ouvi-os dizer que a percepção delas em relação às pessoas havia mudado e que passaram a enxergar muitas situações de sua infância de maneira diferente. Não bastasse isso, ainda afirmaram que passaram a lembrar-se de coisas esquecidas, conflitos ocultados e sentimentos escondidos. Fiquei muito curioso, pois ano passado havia percebido o quão injusto fui diversas vezes com meu irmão quando era mais novo e desde então, minha conduta com ele mudou para uma forma mais saudável, mas a conduta não apareceu por si, era a consequência da mudança da maneira de enxergá-lo e me enxergar. Assim, pensei: se um pequeno insight poderia gerar tantos resultados saudáveis em uma relação, aliás, não só em uma, pois isso se refletiu às pessoas ao redor (pai, mãe, irmão, tios, etc.), o que causaria uma semana dedicada apenas a uma revisão do eu em relação às pessoas mais próximas? E resolvi fazer para descobrir o resultado e me conhecer um pouco mais.

coisas percebidas, coisas refletidas – Nessa semana, duas coisas ficaram claras. A primeira é o quão pequeno, miserável e ingrato eu fui e sou. Por agir como agi diante da infinidade de agrados, cuidados, carinho, compaixão, etc que recebi sem que eu não tenha feito nada em retribuição. E toda essa infinidade no pouco que que consegui ver. A segunda é o quão amado eu fui e sou, pois apesar de tantos problemas, angustias, preocupações, gastos, etc. que causei e causo a essas pessoas e sem que eu faça praticamente nada por elas, elas fizeram e ainda fazem tanto por mim. Logo me surgiu um sentimento de gratidão, vontade de retribuir cada infinidade que fizeram/fazem por mim e de procurar causar menos problemas. O Naikan dessa semana me possibilitou acessar memórias e sentimentos ocultos e visualizá-las, de forma nítida, como no momento vivido e não como flashes. Desde as memórias mais remotas até as mais recentes. Sou muito grato por ter tido a oportunidade de fazer este curso e espero fazer novamente numa próxima oportunidade.

daqui para frente – Acredito que o sentimento e as memórias que desencadearam em mim farão com que naturalmente eu passe a agir de forma diferente não só com as pessoas que avaliei a relação do eu, mas com cada indivíduo ao meu redor. Pretendo também de maneira consciente buscar causar-lhes menos problemas e fazer muito mais por elas em vez de só receber. Matheus Minutti – Itatiba SP

valeriaaaA minha motivação – “Sabia que existia esse retiro mas por ser durante uma semana, me impedia de fazê-lo em virtude do trabalho. Fiz o ultimo Kensan Concentrado e ouvi de uma participante que se o Tokkou foi um horror, o Naikan era pior, isso no sentido de remexerem nós o que buscamos esconder no cotidiano. Fiquei mais curiosa ainda sobre esta prática. Consultei o site da Associação Felicidade e vi que teria um retiro em outubro. Fiz em seguida a minha inscrição e marquei férias para esse período. Chego aqui, sem saber nada sobre a prática mas com objetivo de levar comigo muito espaço para novas experiências pois vou jogar fora o que não é para ser guardado.”

Coisas percebidas e refletidas – “Refleti três perguntas: O que ele(a) fez por mim? O que retribuí a ele(a)? Quais os problemas que causei? Sempre colocando o EU em relação a alguém. Nos primeiros dias eu anotava todas as lembranças a respeito da mãe, pai, ex-marido e os quatro filhos. A minha mente é muito gráfica, por isso eu escrevo e lia para me certificar de que não esquecia nenhum detalhe. Quando Alam sentava na minha frente e perguntava: “Então Valéria, o que foi que você examinou?”, eu colocava o caderno na minha frente e relatava todos os fatos anotados como se ele fosse o professor que dava uma lição de casa e depois vinha cobrar o que eu tivesse feito.

Para mim estava tudo muito tranquilo pois levantava as 05:30 horas, escovava os dentes, lavava o rosto, varria o corredor e ia pra dentro do quarto pensar. Às 7:30 horas a Inês entregava “o” café da manhã e depois eu continuava a pensar; às 12:30 horas vinha “o senhor” almoço e então eu continuava pensando; às 18:30 vinha um maravilhoso jantar e eu continuava pensando; sem contar que o quarto tem uma janela de frente para um pé de pitanga que por si só já é lindo de observar, e ainda presenciei a visita de vários passarinhos, tucanos, borboletas, o Matheus, eu, siri-ema, um lagarto e uma infinidade de insetos que rodeavam aquelas frutinhas. Que vida boa!

Foi assim, com sentimento de hotel 5 estrelas que eu encarei o Naikan até quarta-feira, quando o Alam anunciou que retornaríamos o examinar o EU em relação àquelas pessoas novamente. Aí eu pensei: Não é possível! Tudo de novo? Eu passei três dias praticamente numa sela, feito uma presidiária, privada de comunicação, depois de tantos fatos anotados e relatados em detalhes, ele ainda quer que eu faça tudo outra vez? Essa prática japonesa deve funcionar bem lá no Japão, mas aqui ela é muito chata e até agora não fez nenhum efeito arrebatador em mim com eu estava esperando. Que perda de tempo!

Bom, mas é preciso fazer o que o mestre mandar. Lembrei que o Alam mais de uma vez questionava o fato de eu anotar as coisas que eu iria falar. Pensei também que se eu continuasse a anotar as coisas que considerava importantes, ficaria muito parecida com o que já tinha feito, então tomei algumas decisões: coloquei a cadeira de “meditação” de lado e fechei a cortina, assim eu não teria mais com o que me distrair; fiz uma linha do tempo desde o meu nascimento até agora, cortando essa linha de tempo nos anos que considerava importantes como: entrada na escola primária, ginásio, colégio, …etc. E comecei a pensar as três perguntas em relação à minha mãe no período primário. Quando Alam entrou no quarto e perguntou o que examinei, foi muito mais intenso eu buscar na memória o que falar. Foi como comer um pãozinho que acabou de chegar da padaria, sentindo o calor, o cheiro, a maciez, a crocância e o sabor. Bem diferente de comer o pãozinho que sobrou de ontem e que a gente come só porque está com fome.

E, a medida que eu avançava na linha de tempo e examinava o EU em relação a minha mãe, mais descobria quantas coisas ela fez por mim, quantos problemas causei a ela, e o que retribuí não chegou aos pés do quanto recebi.

Isso se repetiu com meu pai, querido pai, que tanto fez por mim, que tanto me acolheu que tanto me amparou, que tanto torceu por mim, e com certeza não recebeu o carinho e a atenção que merecia.

O ponto que eu mais temia era o ex-marido. Talvez por isso desde o início eu tenha me protegido, adotando aquele sistema de escrever, porque escrevendo, parece que a gente trabalha com o consciente e fica simples racionalizar. Quando a gente só pensa nos fatos e depois começa falar, puxando pela memória, aparecem os sentimentos… e aí fica muito ruim. Volta toda tristeza, toda raiva, toda mágoa, todo rancor. Esse com certeza foi o ponto mais difícil trazer à tona. Mas veio… e eu chorei, eu desculpei, eu me perdoei, e surgiram algumas opiniões novas, que esclareceram pontos que eu me culpava e que ainda preciso assentar.

A última pessoa examinada foi minha sogra, porque também é muito querida e me ajudou muito, fez muito por mim, causei a ela vários problemas, principalmente quando decidi me separar do filho dela, mas também foi possível me reconciliar com o que fiz em retribuição a ela, que foi pouco comparando com o que recebi dela.”

Daqui pra frente – “Quero levar comigo as alianças que fiz com o EU em relação às pessoas que examinei e procurar retribuir mais do que receber. Será um trabalho diário, e quando tiver novamente a oportunidade de parar, quero não reconhecer que recebi mais do que retribuí.” – Valéria Zago – Jundiaí SP.

caca“Desde que ouvi falar do Naikan pela primeira vez (através do Alam e Inês), eu fiquei curiosa mas ainda não conhecia o suficiente. Após algum tempo eu própria tinha o hábito de lembrar de alguns fatos de infância e “ressuscitá-los” na memória tornando-os presentes, fatos as vezes prazerosos, as vezes pesados e sofridos. Com isto eu trazia e volta a minha mãe, o meu pai, o meu marido, pra minha vida mesmo que sem muita ordem cronológica: alguns flashes que ficam guardados na memória, com todo um sentimento de vida. No princípio, quando fui convidada a fazer, (ano passado), eu tinha medo de ficar muito isolada, durante a semana de Naikan, pois já vivo muito só e cheia de lembranças. Eu vinha lendo muitos livros sobre budismo e o Alam havia me informado que o Naikan foi inspirado no budismo zen, o que me despertou mais a curiosidade. Também li num livro (se não me engano do Jack Kornfield) monge budista e hoje psicólogo na Califórnia, USA, ele fala deste método como um caminho para alcançar mais clareza e reconhecimento dos seres e de nós mesmos em relação a nossas experiências com eles, durante a etapas da vida. Este ano resolvi fazer, ainda com um pouquinho de receio de ficar meio isolada do mundo, meio parada, etc. Isto porque eu teria mais disciplina e uma semana só dedicada a isto, num lugar próprio, com alimentação adequada e com um supervisor – professor para ouvir. No começo do Naikan trabalhei “eu em relação a minha mãe” examinando: a) O que ela fez por mim. B) o que eu retribuí a ela. C) Quais os problemas que causei a ela. Foi muito significativo rever esses feitos e tudo que ela fez para mim e fiquei mito feliz de poder rever a participação dela na minha vida, a força que ela me deu, sempre. No entanto, quando examinei o “eu em relação a meu pai” achei (por um momento), que eu tinha que reconhecer tudo que ele fez na primeira infância e adolescência “de positivo”, sendo bondoso, etc. Percebi que meu pai era outro ser, deferente de mim, diferente de minha mãe, e depois de algum tempo (talvez um dia), eu consegui, com a cutucada do Alam, que ele era ele, e eu era eu, e que aquela era sua forma de agir, o que ele “dava conta”, originada de sua criação, cultura, etc. Veio uma sensação de começo de entendimento e perdão. Quero aplicar sim. Primeiro, valeu a disciplina, organização. Algo que não estou muito acostumada. Ter uma intenção, trabalhar certa pessoa, ou mesmo certas fases da vida. Percebi mais disposição para a vida, e ter mais tempo para a família e amigos. Estarei junto e espero estar tranquila para continuar a refletir e compreender isto: cada um é um (embora faça parte de mesma existência).” – Maria Carmen Bahia, Campinas SP

maria brasil 150x150A minha motivação – “O que me trouxe aqui para fazer Naikan foi a necessidade que senti para entender, compreender, descobrir o que é mesmo o sofrimento. O que me faz sofrer. Eu precisava urgentemente sair do repeteco de sentimentos de culpa e de uma auto-compaixão, de umas “peninhas” de minha mãe que morreu sem eu estar perto dela, de num ter visitado ela todo dia, de num ter levado pra tomar sorvete, e por aí vai o muro das lamentações. Sofrer porque? Vim com esta pergunta. E outra “merda” também era sofrer feito uma “besta” porque o tal marido,”havia me abandonado um dia em casa com febre, e foi embora com outra”, ai, ai que sofrimento!. E como essas coisas vinham se repetindo, e eu perdendo o controle sobre mim mesma. Pensei – Sabe de uma coisa?! Vou fazer o Naikan! – Li os relatos do Miguel, da Aninha, da Uli, da Inês, de quem mais? Li todos. Vou. É nessa que eu vou. Estava lendo também Krishinamurti e Tolle sobre coisas parecidas. Então vou.”

Coisas percebidas, coisas refletidas – “Percebi que se eu ficar atenta e prestar bem atenção, no método Naikan, era mais fácil examinar minha história. Perceber que não só bastava querer parar de sofrer, era preciso se aprofundar nos fatos, de verdade. Porque querer parar de sofrer, por causa disso ou daquilo, eu sempre quiz, claro. Mas perceber com o acompanhamento da “Linha do Naikan”, é outra coisa. Deixa eu ver se expliquei bem: sofrer ou viver de sofrimento eu não gosto. Digo aquele sofrimento tipo ai, ai, coitadinha de mim. No Naikan fui percebendo e sentindo lá dentro de mim que a dor é natural, detrimente alguns fatos na vida. Agora, permitir que essa dor, se transforme em sofrimento… é outra coisa. Aí é que tá o perigo. O sofrimento toma conta de tudo, da cabeça aos pés, e ainda por cima me rouba a minha dor que é Minha única arma, contra o sofrimento. A dor pra mim é um fio, ou a chance de eu me conduzir para examinar o fato. Por que o sofrimento tem a mania de acabar com o fato, como fato de verdade, e se conduzir sozinho! acabar comigo! Quer ver um exemplo: eu tava numa sorveteria um dia desses antes do naikan, e estava lá uma senhora de minha idade com sua mãe velhinha tomando sorvete. Aí num deu outra lembrei de minha mãe. De repente bate um tiro furando minha lembrança – “pobrezinha de minha mãe, não teve uma filha igual a essa”. Mais: – “eu levei tão pouco minha mãe para tomar sorvete”. E ia entrando uma coisa parecida com a dor. Mas na verdade fiquei sofrendo, perdi a tarde. E no Naikan, por sorte minha, a dor me visitou, se me apresentou ! Para que de fato eu reconhecesse um e outro, isto é, a dor e o sofrimento. Conheci a dor porque logo após examinar a morte de minha mãe, quando me deitei para dormir, me bateu uma dor. Ela estava bem dentro de mim, viva, circulando na região do meu peito, como se fosse uma dor paciente. Nesta hora foi até cômico, em relação ao Sr. Sofrimento (chamo agora o sofrimento de “Senhor”) não porque eu acho que ele seja, caso a palavra Senhor seja mesmo significado de poder. Não é isso…chamo assim pra ele saber que eu estou quase ou sabendo quem é ele. Então como eu ia dizendo: Na horinha, no minuto em que eu estava com minha dor, chega ele, o sofrimento, feito um ladrão, querendo roubar a minha dor. Então nessa hora escuto uma voz sem som dentro de mim – “Epa, cuidado Maria, não se faça ladra de si mesma.” Não se deixe levar pelo sofrimento.” E voltei minha atenção pra dor, me encolhi pensei em mim, em minha mãe e me acalmei. E do meu peito até a barriga foi sendo a dor sem sofrimento, só uma dor. E ela foi sumindo pelo meu lado esquerdo bem pelo local, acima da virilha esquerda, onde um dia, me espetei em uma varinha de marmeleiro, que estava no meu caminho no mato, da serra onde nasci e me criei com minha mãe. Só que ela nunca soube desse acidente. A minha dor naquele momento tinha uma verdade, uma história real, de verdade, nesta noite de Naikan. Sim ela foi saindo por ali, e ouvi de novo uma mesma voz – “nascendo”. E se foi, fiquei sem ela, sem a dor, daquele momento. E ainda não sei o que quer dizer “nascendo”. E o bom mesmo é que fiquei sem o sofrimento, desta vez ele dançou. Fui dormir em paz. Fui dormir pensando na dor do parto natural e na dor da morte. Da morte eu digo assim por dizer, porque como posso saber se ainda não morri? Só sei que a dor pra mim é diferente do sofrimento. O sofrimento mente, inventa, adora uns ‘se’ “.

Daqui pra frente – “Ah! Quero daqui pra frente viver Naikanzando. Vou escrever uma cola na palma da minha mão assim: “- O que Ele, Ela fez ou faz por mim?”, “- Em que ou como lhe restituí?”, “- Quais os problemas que estou ou lhe causei?” E ficar bem de olho no Senhor Sofrimento. Porque ele é esperto, com certeza ele deve tá fazendo um curso intensivo com o cameleão para aprender a mudar de cor quando necessário. E penso me disciplinar para poder examinar o EU toda noite antes de dormir. e todo tempo quando algo se me apresentar. É o mínimo que posso fazer por mim em relação as pessoas que fazem ou vão fazer parte de minha história. Né não? Tá bom assim, então.” – Maria Elza de Oliveira – João Pessoa PB

“Vim fazer Naikan, pois quando soube através do Alam, e conforme fui sabendo mais a respeito do Naikan, mais importante parecia poder fazê-lo. “Examinar a minha própria história”, “Porque este [eu] é assim?”. Voltar a minha atenção para as memórias mais antigas em relação a minha mãe não foi fácil no primeiro dia. E durante todo este primeiro exame percebi que minhas lembranças estavam bagunçadas. “Quando foi isto?”, “isso aconteceu mesmo?”, “será que foi assim?”, “essa lembrança é minha mesmo ou será que é algo que foi contado para mim?”. Porém pouco a pouco, conforme ia continuando, fui conseguindo criar um mapa com as datas aproximadas dos eventos que me marcaram mais, tendo o período escolar como referência. Com esse mapa “mais ou menos” feito, consegui focar com mais tranqüilidade em cada período e então as lembranças em relação a minha mãe foram surgindo e pude começar a enxergar uma trajetória.
O que a minha mãe fez por mim?
Como retribuí?
Que problemas causei a ela?

Foi a partir do terceiro dia que procurei ficar mais tempo em cada lembrança, e então a olhar com calma, a fim de ver o conteúdo. Quando eu era criança minha mãe fez tudo por mim. Eu era completamente dependente dela. Se eu comi, foi porque minha mãe me alimentou. Lembro de um dia que comemos peixe na vizinha, minha mãe tirou os espinhos para mim. Se eu tomei banho, foi porque minha mãe me banhou. Se fiz cocô, foi minha mãe que limpou e depois que me ensinou a me limpar sozinho. Se eu fui à escola, foi ela que me levou, comprou os livros, encapou os cadernos (com plástico azul em xadrez), me vestiu com os uniformes (camiseta branca com o símbolo do colégio Externato São João, bermuda azul marinho, tênis, meia, nessa época não podia ser qualquer meia. Não podia ter costura grossa, pois eu tinha aflição…) Quanto trabalho eu dei! Seguindo assim cada evento, lembranças “reais” surgiam. Nessa época onde a gente morava? Como era o prédio? Como era cada cômodo? Detalhadamente… A vizinhança… Tudo que eu fiz, tudo, minha mãe estava diretamente envolvida, provendo tudo, fazendo tudo, cuidando de tudo. Tudo isso ela fez por mim. Eu nada fiz como retribuição. Nem consegui enxergar as coisas que ela estava fazendo. Absolutamente cego. Os problemas que causei… Foram tantos… Fiquei doente muitas vezes, Briguei com minha irmã, me machuquei, fui mal na escola, quebrei coisas em casa. O ano de 1994 foi pior. Além dela estar passando por um período de muita tristeza com o divorcio, ainda teve que lidar com um adolescente teimoso, mimado, briguento e revoltado. Nesse ano matei muitas aulas de matemática, fiquei de recuperação na escola, inventava mentiras, coloquei minha mãe em situações vergonhosas. Ela vinha estudar comigo, queria me ajudar com as lições (até isto ela fez por mim). Como eu retribuí? Falei que ela tinha bafo! Falei que ela nunca estava presente como as outras mães. Disse coisas horríveis com vontade de magoá-la. Mas ela continuou fazendo coisas por mim. Lembro-me de muitas coisas agora. E com todo este trabalho…Não lembro de ter dito obrigado! Foi assim à vida toda. Quando se é criança é difícil retribuir, ter discernimento para perceber essas coisas. Mas eu continuo cego para minha mãe até hoje. Continuo mimado igual, achando que as coisas que ela faz para mim são óbvias. Tão óbvias que nem consigo ver. Ela continua ainda hoje fazendo muitas coisas por mim. Ela continua por trás de tudo que eu faço. Ela só quer eu seja feliz. Em tudo que ela fez por mim, em cada detalhe, desde que eu nasci, todo gesto, pensamento voltado para mim, é uma extensão de seu amor. Quando fui começar a examinar em relação ao meu pai, tive receio, achei que não ia ter muita coisa. Eu tinha um sentimento em mim que por causa da separação ele tinha ficado distante e mais ausente. Eu tenho atualmente uma relação muito boa com meu pai, então achava que eu não tinha nenhum rancor. Durante o naikan todos esses sentimentos ficaram expostos, porém ao examinar com cuidado ano por ano eu vi que na verdade ele foi um pai muito carinhoso e presente e que ele fez muitas coisas por mim. Olhando o período da separação dos meus pais eu percebi que com tudo isso eu vi meu pai como homem muito cedo, um humano normal, vi minha mãe como mulher. E a partir de então minha relação com meu ele foi muito mais de amizade. Isto é algo incrível que ele fez por mim. Mas ele não é um simples amigo, ele é meu pai, fez muito mais por mim do que eu pude retribuir. Fez muito mais por mim do que eu pude agradecer. Fui cego também em relação a ele. E causei muitos problemas. No Naikan lembrei uma porção deles. Depois examinei em relação a minha noiva. Eu comecei achando que eu estava fazendo mais por ela, do que ela por mim. Quando comecei a examinar não conseguia ver as coisas que ela estava fazendo. Então percebi que examinar a relação de casal é mais difícil que a relação com os pais, pois não se dependente disso para conseguir comer, vestir… Então, novamente, vou deixando de ver as coisas que ela faz para mim. Ela fez sim, depois fui lembrando. O que me deu medo foi ver que com o tempo eu não percebia mais as coisas que ela sempre fez. Por que essas coisas ficam “óbvias”? Eu passei a ficar cego também com os problemas que causei, vivendo nesta posição conveniente onde eu acho que faço sempre mais. No Naikan eu pude rever isso, e isso me faz muito feliz. Daqui pra frente eu não quero que as minhas relações se tornem óbvias para mim. Basicamente o naikan foi pra mim um olhar interno extremamente profundo. Olhando a minha própria história foi riquíssimo começar a ver como cada lembrança se faz presente na pessoa que sou hoje. Eu comecei a entender melhor de onde vem cada coisa que faz eu ser assim desse jeito. O que minha mãe fez por mim, meu pai, as pessoas próximas, amigos e mesmo eu sendo assim cego pra muitas coisas, cheio de coisas pra resolver, posso viver uma gratidão profunda pelas pessoas e pela vida. É mais ou menos isso que estou sentindo.” – Miguel Atensia, Campinas SP

“Lendo agora minhas impressões eu vi que a coisa de ficar cego ao que as pessoas fazem por mim ficou bem forte pra mim logo que acabou o naikan. O sentimento de gratidão também. Mas agora depois do naikan eu fico pensando em como todas essas coisas que eu tive contato, que eu vivi, das coisas que meus pais fizeram, como tudo isso me formou assim. Com a mini-vila que terminou ontem, eu comecei a pensar no quanto de vilas tem mim também. A gratidão está junto disso tudo, pois estou feliz hoje. Mas fico muito curioso nessa coisa de perceber o que está chegando em mim e como eu estou incorporando essas coisas e formando minha personalidade. Como se dá este processo? Quais conceitos estão funcionando como suporte quando recebo as influências? Quais pessoas me influenciam hoje em dia? Por que essas pessoas? Como eu estou enxergando elas? Outra coisa que também fiquei pensando é por que eu me lembrei dessas coisas durante o naikan? bem…e por ai vai…”Miguel Atensia, Campinas SP

“Vim fazer o Naikan pelos relatos que ouvi nestes ultimos 2 anos dos naikandos. Imaginei que seria muito bom tirar algum tempo para me pensar para rever minha história. Na verdade sempre espero uma mágica, uma fórmula que venha me salvar.

O Tokkou, de muitas maneiras, é formulado de modo que você possa ir se referenciando, através de exemplos, a olhar pro seu próprio eu. Quando percebi que no Naikan eu teria apenas a mim mesma, me senti uma imigrante a bordo de um navio, onde os barulhos do cais iam ficando cada vez mais distantes. Cigarros, café, um colchão, cadeira e pedaços de uma vida inteira seriam minhas companhias por estes dias rumando em busca de uma nova terra Natal.

Nos dois primeiros dias me posicionei em relação a minha mãe. Fiz uma retrospectiva da minha vida, de pequena até minha saida de casa, e alguns anos após este evento. No final destes dias, senti que estava como que contando um filme, uma história. Percebi que não conseguia me ater às 3 peguntas, e muito menos respondê-las.

No filme “O auto da compadecida” tem dois nordestinos que conversam. Um deles conta histórias fantáticas, ao que outro pergunta, mas como isso pode acontecer? No que ele responde: – “Como pode acontecer eu não sei, mas que foi assim ah!! Isso foi!!”. Assim me senti: eu escolhia um acontecimento determinava um fato e para percorrer o caminho que desembocava no fato, descobria lacunas e as preenchia com acontecimentos anteriores ou posteriores.

Eu sabia o fim da história e tentava desesperadamente “ajustar” tudo, de maneira que eu pudesse justificar os meus atos. Ajustar a “realidade dos fatos”, ao “eu” que viveu o fato, ao “eu” que viveu depois com suas conclusões sobre o fato, e a esse eu que agora revia tudo isso, foi uma missão, quase impossível. Quando saí do lugar da vítima e olhei, sem tentar me justificar, as coisas melhoraram. Ou pioraram, ha ha ha ha.

Tenho boa memória pros acontecimentos, procurei perguntar muita coisa aos meus parentes, a respeito de meus antepassados. Cheguei no passado, até a “perdoar” meus pais. Faço terapia há 10 anos com a mesma terapêuta. A partir deste momento, passei a tentar entrar mesmo na cena. A ver de fora todos os implicados. Fiz uma friza do tempo para mapear minha vida. A muito custo consegui estabelecer datas, nascimentos, mortes, separações e acontecimentos.

De maneira bem geral, e afunilando o que vevenciei estes dias, pude ver claramente onde determinei alguns padrões na minha vida. Entendi de modo completamente inusitado, não ver meus pais, ou minha vida, mas as fórmulas que adotei para meus comportamentos diante da vida. Formulas/padrões que criei, fruto da minha educação. Mas independente da minha educação, eu criei essas fórmulas. Pela lógica, se seu as criei, posso descriá-las. Será mesmo assim tão fácil?

Percebi muita coisa.

E o kiko? (e o que é que faço com isso?) Revi minha vida, preenchi lacunas que nem desconfiava que existissem, alinhavei retalhos soltos, cerzi profundos buracos da minha alma, e desenterrei sentimentos mortos e sepultados.

E o kiko? (e o que é que faço com isso?) “Já não tenho mais dedos pra contar quantas pedras me atiraram e quantas atirei”-Lulu Santos.

Nos primeiros 5 dias eu não entendia a razão das pessoas fazerem mais que 1(um) naikan na vida. No último dia tive a vivência de ter percorrido, sem medo, o caminho da minha vida. Caminho que me levou para mais perto da realidade dos fatos, e dos sentimentos gerados por eles. Mas a dor que causei e a dor que me causaram, essas dores , esse passado nunca vai mudar. A vida vai continuar. É do ser humano se enganar, ajustar as realidades a seu favor, errar, mudar de ideia, e porque não finalmente mudar de vida?

Garantias? Nenhuma. Mas posso periodicamente rever meus atos e os atos das pessoas à minha volta. Porém, sempre me esforçando pra dar uma olhada no retrovisor. Então sim, é consistente fazer mais do que 1(um) naikan durante a vida.

Num certo momento, o Alam comentou sobre o amor que o Mi.Yamaguishi propõe, a saber, ter como referência nas relações, o amor dos pais pelos filhos. Penso que essa é mesmo, uma ótima dica, uma reflexão fácil e poderosa. Mesmo aqueles que não têm filhos, foram amados, por seus pais, e se não o foram, reclamam desse amor, e podem descrevê-lo muito bem. No fundo, todos sabemos o que é esse amor.

A vida vai continuar… é verdade. Posso me olhar com mais carinho e até com uma certa distância, também me amando, perdoando e compreendendo, do modo que tantas vezes sofri e pedi que pudesse ser amada. Nunca mais dispensar o espelho retrovisor mas sem esquecer ou perder o para-brisa que nos desvenda os caminhos que podem ser absolutamente novos.

Saio angustiada, sem saber ao certo, que atitude tomar em relação a algumas pessoas. Mas também, levo bem embrulhadinho essa descoberta, que apesar de eu ser uma pessoa de ação, talvez tenha que eperar o tempo dessas pessoas. O que posso fazer por mim, é não enterrar novamente meus sentimentos. E por elas, posso esperar sem prejudicá-las.

Saio também um pouco deprimidada. Às vezes me cansa viver, esperar o tempo passar e ver os frutos…. Sinto um pouco de medo da vida, mas ironicamente localizei o momento e os porquês onde esses medos foram criados. Agora é seguir… sem ilusões.” – Walkyria R. Suleiman, Sampaulo SP

(Primeiras impressões, registradas logo após o término dos 7 dias de Naikan)
“Realmente, descobri aspectos novos de mim mesma, na minha própria história. Foi surpreendente, fiquei com vontade de fazer mais. De combinações novas dos mesmos elementos (as experiências, lembranças que eu sempre tive) parecem surgir “Getalts” que imaginava antes, no entanto e também mais claros e novos até então desconhecidas… não sei, se antes já estava curiosa, agora estou mais ainda. Descobri o tesouro que é minha vida. Depois dessa experiência de Naikan, me parece que as outras terapias que eu já fiz, trabalhavam a partir de problemas que eu tinha. No Naikan se descobre a riqueza e de repente me dei conta que os problemas eram riquezas também. Olhando com carinho se transformam… isso é uma coisa que quero estudar mais. Na última noite tive até a impressão de que o meu processo de uma semana se assemelhava a uma sessão de Ayuasca. Quando eu tomava Ayuasca, com comida ainda não digerida no estomago, dava dor de barriga, só depois vinha aquelas sensações e visões maravilhosas. Foi assim, esta semana. Olhei pra alguma coisa mal digerida, chorei, cansei e depois vi aquele brilho em tudo. Tudo tão maravilhoso…. Nunca tinha vivenciado um processo tão intenso de lembrar das experiências da minha infância e adolescência. Que simplicidade! Trabalhar com as 3 perguntas! O Naikan para mim é uma viagem do coração, da riqueza do coração.” – Ulrike B. Rapp, Itamonte MG

(Reflexões registradas uma semana após o término do Naikan, depois de reler o próprio depoimento)
“Nestes 5 dias foi tanta coisa e passou tão rápido. Agora, durante esta semana pós Naikan, aos poucos, parece que vou percebendo melhor cada coisa. Hoje por exemplo lembrei de uma frase que minha mãe sempre falava e de repente me toquei: mudou realmente meu sentimento em relação a esta frase – antes era algo que colocava um peso nas minhas costas, agora percebo o amor que tem nela. Ela ganha um novo significado para minha vida. Assim lembrar do passado em geral agora é diffente, não é mais melancolia, mas uma nova descoberta. Por outro lado tem as coisas assombrosas também, que de repente vão invadindo a minha consciência … dessas é mais dificil falar, mas estou aprendendo o exercicio de vê-los como fatos simples, objetivos, sem julgamento, para então perceber o que acontece … Começei fazer uma lista – tabela com os anos, os lugares onde estava, o que fazia e as pessoas com quem tive encontros significativos, se consigo lembrar deles sempre tem algo de significativo. Sim, tantos amigos, eu estava triste porque nossos caminhos se afastaram. Mas agora lembrando-los com as perguntas do NAIKAN, enxergo o valor que fica na minha vida e isto traz eles para dentro do meu coração. É experiencia que vivi, ela se torna presente em mim, não é mais passado. Nisso estou me dando conta de como é importante e valioso ficar no concreto, e não fugir para devaneios, aquele “TUDO é MARAVILHOSO”. É assim que enxergo hoje algumas práticas dos quais participei em outros grupos. E daí outro susto: me parece que no meu depoimento escorreguei um pouco para dentro deste velho trilho. Por isto não estou muito satisfeito com este depoimento. Já não quero mais ficar “decolando” em autopiloto … kkk … quero ficar (con)centrada no aqui e agora, conectada com Céu e Terra ao mesmo tempo.” – Ulrike B. Rapp, Itamonte MG

“Eu já tinha ouvido falar do Naikan e acreditei que seria uma boa oportunidade de investigar, com uma metodologia, a minha vida. E descobrir de onde vem sentimento e reflexos em mim, o que tem causado tantos problemas de relacionamento em minha vida. O fato de ter feito o Curso Tokkou e ter sido um marco em minha vida me ajudando a entender mais sobre mim também ajudou bastante na minha decisão. Se o Curso Tokkou foi tão bom, o Naikan também vai ser. Saio feliz com o que estou levando. Descobri o que queria. Talvez ainda tenha mais coisas para descobrir, mas com o que já estou levando a busca será mais proveitosa. Gostei da metodologia que, apesar de ser cansativa, é bastante eficaz. Tive vários momentos do fluxo continuo de recordações que ao mesmo tempo, foi possibilitando insigths bastante significativos. Também percebi que conseguia isso através da perseverança do exame e da busca ou do “afinco”. Levo comigo tudo que vim buscar aqui: um maior conhecimento sobre mim, uma metodologia fantástica que pretendo usar sempre em minha vida, todas as emoções e insghts relatado durante as entrevistas e deixo minha sincera gratidão por tudo, minha amizade sincera a todos.” – Beto Samu, Valinhos SP.

Minha motivação – “O motivo principal para participar do Naikan foi meu desejo de ver a mim e as pessoas da minha família felizes, de verdade. Porque mesmo depois de ter feito Tokkou, há uns anos atrás passei por uma fase de muito estresse seguida de uma depressão profunda, daquelas em que a saída parecia ser apenas a morte. Quase que diariamente vivenciava sequências intermináveis de pensamentos, cada vez mais complexos e dolorosos. Normalmente quando tentava entender o passado, entrava num estado mental atormentado e não conseguia mais sair. As vezes ficava dias sem contato com a família. Mas continuava buscando me reerguer e transpor esse estado de sofrimento interno. Ao saber que o principal objetivo do Naikan era o conhecimento de si mesmo por meio do exame da história pessoal, resolvi, apesar do medo, puxar a fila e participar do primeiro Naikan.”

Coisas percebidas e refletidas – “Nos primeiros dias segui o meu exame de maneira um tanto superficial. Havia muito julgamento e lembrava das pessoas sem ver a mim mesmo. O “eu” continuava invisível como um pensamento. Mas lá pelo terceiro dia aconteceu algo muito especial, após responder novamente as mesmas três perguntas incessantemente e de maneira focada, um estado de paz se instalou em mim. O medo e a frustração deu lugar a um sentimento de aceitação. E passei a perceber coisas que antes não conseguia. E me dei conta de uma coisa importantíssima, de como esse “eu” foi construído. A proteção e o segurança que tinha com meus pais me criaram. Sou fruto disso tanto quanto seus genes. Me vi como um homem que quer receber as coisas prontas como sempre recebeu dos pais e ser amado apenas do jeito que foi amado pelos pais. Enfim, minha vida atual é o que construí a partir desses relacionamentos e experiências. Muitos sofrimentos e erros aconteceram por falta dessa consciência, de que sou assim formado, com uma história única. Minha relação com minha esposa foi o reflexo de tudo isso. Nunca consegui vê-la de fato como ela é, um ser construído com outra história e portanto diferente de mim. E assim também com todas as pessoas que vivem ao meu redor.”

Daqui pra frente – “Espero praticar esse exame diariamente, ver a vida de maneira mais objetiva. Poder viver todos os dias nesse estado interno de paz e quietude. Aceitando a vida como ela é. E lembrar o caminho de volta, sempre que as obrigações da vida cotidiana me tirarem deste centro. E quero agradecer pessoalmente à todas as pessoas que fizeram muito por mim… minha mãe, pai, irmãos, esposa, filhos, amigos … e retribuir a todos dentro de minhas possibilidades.” – Itamar Vieira, Criciúma SC. Para ler mais…